Quase um balanço sobre as manifestações dos 20 cents:
Desde que se iniciou a marcha dos 20 cents, ela mobilizou e monopolizou a mídia e aquilo que parecia ser um movimento fútil - a briga por 20 centavos - polarizou opinioes e moveu o debate: o que é bastante positivo.
A manifestação é boa, o debate é importante, politização é essencial. O que eu venho questionando é o nivel de reflexão dos manifestantes, de comprometimento com a causa PUBLICA - independente de qual seja, minha, sua, de outrem.
Creio que politica tem que ser algo pelo bem comum, não APENAS no momento em que o nosso calo aperta.
Minha inquietação se iniciou pelo fato de as manifestações abafarem completamente a copa: Nem parece que está acontecendo um evento tão importante nesse pais. Isso me deixou intrigada.
Não porque eu tenha paixao por futebol. Nem mesmo porque eu esteja "do lado da Dilma". Mas porque as TVS não costumam dar TANTO destaque a manifestações e principalmente, porque dentre todos os eventos politicos populares desse ano, esse tenha me parecido o mais "fútil". Considerando greves de professores, da saúde, problemas indigenas, enfim, tantos problemas graves, que acarretaram mortes e prejuizos incalculáveis, o "levante dos 20 centavos" me parecia uma bandeira fútil. E, no entanto, teve maior destaque que qualquer outro dos eventos tragicos desse ano.
Em segundo lugar, escolhem justamente o momento da copa para reclamar. E 20 centavos de busão acabou arrastou multidoes. As mesmas que eu NAO VI na TV quando os indios, sem-terra e tantos outros são chacinados, quando presidiários e moradores de rua são queimados, pessoas são atropeladas por bebados irresponsaveis e etc.
Há causas importantissimas passando despercebidas. Foi por isso que eu me coloquei em posição de desconfiança inicial.
Além disso, a copa do mundo não representa APENAS o gasto estratosférico que já se conhece. Ela tem efeitos financeiros futuros positivos para o pais - seria muita irresponsabilidade do Lula e da Dilma, gastarem esse dinheirão com uma festa se isso não trouxesse efeitos posteriores.
A dimensão que esses eventos tomaram - tendo em vista que outros eventos MUITO MAIS IMPORTANTES (lembram dos indios morrendo há poucos dias atrás?) não tiveram o mesmo destaque NA MIDIA, nem nos manifestantes. E isso deu margem a pensar que, afinal, a mídia poderia ter outros interesses nessa cobertura.
E entao, é hora de se pensar sobre as coisas. Sobre o que é um movimento e sobre o como ele é apropriado por outros poderes e se transforma em algo totalmente fora de seu planejamento inicial.
É bom ver as pessoas na rua. Acho maravilhoso. E quero continuar a ve-las, como também quero ver a TV dar closes nas professoras de SP apanhando, nos indios morrendo, nos sem terra sendo assassinados.
Como também espero que esses grupos que se formaram em torno de um "hashtag" consigam desenvolver um debate e uma participação mais constante e principalmente que se informem melhor. Que se comprometam realmente. Afinal, politica gira em torno de informação e participação.
O que eu tenho pontuado desde o inicio é que esses movimentos, exatamente por essa ausencia de plataformas claras - e APARENTE desinformação sobre os problemas que vão alem dos 20 cents - estão servindo INVOLUNTARIAMENTE como aríete para intençoes excusas e grupos tão exoticos como esse retorno da MARCHA DA FAMILIA CONTRA O COMUNISMO (xessus, que coisa Mon-rá!).
Me preocupa essa plataforma de repúdio indiscriminado a quaisquer partidos politicos, esse extremismo ingenuo do protesto pelo protesto, que apenas abre brechas vorazes para a ascenção dos monstros (metafóricos ou não) que espreitam a anomia e a revolta acéfala.
Os agrupamentos de quebra-quebra que a gente viu - e apesar de minoria, eles fizeram GRANDE efeito - são apenas a ponta do Iceberg de forças "ocultas" que aproveitam a crise para extender seus tentáculos.
Há que ter memória e fazer valer essa memória. Num tempo de ficções travestidas de história, em que todas as instituições novas e supostamente antigas, enraizam-se num suposto passado, a tradição de mobilização politica precisa e deve ser lembrada. Bem como todos os efeitos dela, as forças que ela mobiliza e os efeitos colaterais.
Enfim, toda geração acha que está inventando a juventude, o protesto e etc.
E no entanto, quantas gerações de jovens e ativistas já tivemos - e vão sendo esquecidos. A história precisa cumprir sua função social, afinal. E eu realmente acredito que ela a possua, ainda que não tenhamos sido capazes sequer de provar e aprovar nosso estatuto profissional junto ao Congresso brasileiro.
(originalmente publicado no facebook
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